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Os live-actions

(artigo originalmente publicado no site do grupo FronsDraconis).

Bom, pra começar, não é muito fácil explicar o que é um Live-Action sem gastar pelo menos uns 10 minutos de prosa. Então, para facilitar a conversa, vou usar a abreviação que está se tornando “padrão” na Internet para falar de Live-Actions: LARP (que vem do inglês Live-Action RolePlaying)

Os LARPs são uma forma relativamente moderna de entretenimento, tendo evoluído nos últimos 20 anos como uma maneira de misturar o jogos de RPG tradicionais com uma forma mais ampla de teatro improvisado. Assim como no RPG, os jogadores interpretam personagens e interagem uns com os outros para construir uma história.

Mas alguns pontos diferem de seus dois “pais”, o RPG e o teatro: no LARP os personagens realmente se vestem, andam, falam e atuam como se estivessem encarnando os seus próprios personagens – e normalmente um jogo no estilo Live-Action tem muitos jogadores – normalmente 20 ou mais, sendo que os RPGs tradicionais costumam ter de 4 a 7 por partida. E também, diferentemente do teatro tradicional, não há um roteiro ou script a ser seguido. A história vai se construindo enquanto os personagens interagem entre si.

Mas onde começou toda essa história? Bom, já faz algum tempo…

No princípio, tudo eram trevas…

Você já deve saber que os LARPs evoluíram a partir dos RPGs de mesa, certo? Mas como eram esses primeiros LARPs, quem jogava, e de que forma?

Devemos nos recordar que, na Era Jurássica do RPG, mais precisamente na Idade do Dado Lascado (segunda metade da década de 70), havia somente o RPG Dungeons & Dragons e alguns outros que, sem sucesso, tentavam seguir seus passos. Então, é natural que os primeiros LARPs tivessem ambientações medievais – hobbits, elfos, anões, magos, guerreiros e tudo o que a gente viu no filme O Senhor dos Anéis :-)

De lá pra cá, muita coisa mudou – os jogadores ficaram mais maduros e experientes (Bom, nem todos! Mas a maior parte sim), o mercado de RPG se expandiu e novas editoras (em particular a White Wolf) viram um bom potencial mercadológico numa área editorial que até então não havia sido explorada de forma satisfatória. Assim, enquanto os anos 70 e 80 foram praticamente dominados por Live-Actions medievais, nos anos 90 houve uma expansão e diversificação da comunidade mundial do Live-Action. Mais ambientações foram adicionadas, mais livros foram escritos e as associações de Live-Action assumiram um caráter mais profissional e empresarial, ao invés de serem as “associações de fundo de quintal” muito comuns nos anos 80.

Os anos 90, também, viram o surgimento de três grandes vertentes do Live-Action moderno: os Live Combats (Combate ao Vivo), os Punk-Góticos , e os Freeformers (putz, como vou traduzir isso sem cair num termo ridículo?). Vamos dar uma olhada em como “funciona” cada uma dessas modalidades de Live-Action:


Live Combat

Os Live Combats são descendentes diretos dos primeiros Live-Actions de ambientação medieval. E a sua principal característica… bom, são os “Combats” mesmo :-) Há dois estilos principais de Live Combat:

Na primeira modalidade, o estilo Live Steel (a mais rara, porque envolve manutenção de equipamentos, especialmente espadas de aço de verdade – e isso custa uma grana…) os jogadores vestem armaduras e lutam com espadas, escudos e machados de verdade (claro, sem que as lâminas estejam afiadas). As lutas costumam ser coreografadas ao invés de os jogadores “saírem na mão”.

E também há a segunda modalidade, o estilo Boffer (o termo é referente às armas revestidas com espuma, para suavizar os impactos). Nesses Lives a moçada desce o cacete mesmo! Mas não se engane – os Live-Actions estilo Boffer não são só pancadaria a torto e a direito. A grande maioria também tem boas histórias, tramas e interações bem elaboradas entre os seus jogadores. Abaixo, algumas fotos de lives no estilo Boffer. Perceba as armas forradas:

As organizações mais famosas de Live Combat são a SCA (Society for Creative Anachronism – estilo Live Steel, entre outros) e a NERO (New England Roleplaying Organization – estilo Boffer), que estão entre as que abrangem vários países e regiões dos EUA. Outras organizações dignas de nota são Amtgard, Dagorhir, e outros.

No Brasil, um grupo merece destaque na área de Live Combat: o grupo Graal RPG, que organiza periodicamente lives no estilo Boffer. E, agora, também a Gladius Swordplay, que está trabalhando pra trazer esse tipo de LARP pro interior de São Paulo.

Live-Action Punk-Gótico

Este grupo surgiu no início dos anos 90, com a popularização dos livros da editora White Wolf - especialmente na linha Vampire . Os LARPs de Vampire foram uma revolução para a sua época. Mudou tudo – a temática, a ambientação, as vestimentas utilizadas e até a forma de combate, que agora era tratada de forma abstrata numa simples jogada de jan-ken-pô (Para quem não sabe, jan-ken-pô é a brincadeira “tesoura-papel-pedra”).

O mais interessante foi que o estilo Punk-Gótico ajudou (e muito) a popularizar os Live-Actions, especialmente por ser um evento de custo muito baixo, se comparado aos Live Combats. Aliando isso ao fato de ter uma poderosa editora por trás, um universo de forte apelo popular (o World of Darkness), um conjunto de regras relativamente simples e bem-definido e também pelo surgimento de associações de alcance mundial para os seus jogadores.

Nos Estados Unidos e na Europa, os Live-Actions de Vampiro foram quase tão populares quanto os Live Combats durante um bom tempo, enquanto que no Brasil a preferência pelos LARPs Punk-Góticos é extremamente ampla. O mais engraçado é que somente em 2001, mais de 10 anos depois da publicação do RPG Vampire: The Masquerade, foram lançadas as regras para Live-Action de Vampire em português. Mesmo assim, já havia grupos de entusiastas de LARPs do World of Darkness por todo o Brasil. Confira abaixo algumas fotos de LARPs punk-góticos:

Mundialmente, as duas maiores organizações voltadas para a produção e encenação de LARPs Punk-Góticos são a The Camarilla e o OWBN (One World By Night). Ambas as associações têm seus chapters (representações) no Brasil também; o OWBN desde o começo dos anos 90, sob o título de Brazil By Night (e suas respectivas sedes, como São Paulo By Night , Salvador By Night , Curitiba By Night ), e a The Camarilla chegou por aqui em 2001, tornando-se The Camarilla Brazil. Organizações nacionais como o Brazil of Darkness também são populares nos dias de hoje.

Freeform Live-Action

A corrente conhecida como os “freeformers” é a mais recente dentro dos Live Actions, tendo evoluído a partir de jogadores que preferiam um estilo mais “free” de jogar, sem as restrições orçamentárias e espaciais de lives tipo Live Combat, e sem as restrições temáticas sobrenaturais dos LARPs Punk-Góticos. E, também, nos Live-Actions organizados pelos Freeformers normalmente não existem “fichas de personagem” – apenas os históricos de cada personagem, muito bem detalhados (alguns chegam a ter quatro páginas de texto puro, sem mencionar UMA estatística sequer). Os LARPs tipo Freeform são os que mais se aproximam de um teatro interativo e improvisacional, justamente por não se fiarem tanto nas regras, mas sim na interpretação pura e simples.

No Brasil ainda não existem muitos entusiastas dos Freeform Live-Actions, mas no resto do mundo a comunidade Freeformer está se ampliando. Um dos exemplos de Live-Action Freeform é a campanha de Star Wars, que rolou no ano de 2006, pelo próprio FronsDraconis. Confira uma foto abaixo:

O maior ponto de referência para os lives tipo Freeform é a LARPA (Live Action Role Players Association), baseada na cidade de Baltimore.

E o Brasil, como é que fica nessa?

Bom, a princípio, as coisas não vão tão bem para nós, brasileiros. A publicação do suplemento Leis da Noite (Laws of the Night), depois de um longo tempo, veio suprir a falta de material em português que impedia uma popularização maior dos Live-Actions, mas foi a única publicação em português a ser lançada pela editora Devir, em dois momentos e duas edições diferentes. Mesmo assim, nos Encontros Internacionais é possível ver diferentes tipos de LARPs sendo experimentados, com graus variados de sucesso. Temos até mesmo alguns sistemas desenvolvidos por autores brasileiros (como as regras para Live-Action do RPG Era do Caos, disponíveis no site da própria editora).

Mesmo assim, ainda faz falta uma união maior entre jogadores, mestres e escritores de Live-Actions, onde juntos eles pudessem trocar experiências, organizar LARPs e playtests, e até mesmo, quem sabe, um encontro específico para entusiastas de Live-Action, nos moldes da Intercon americana. Quem sabe não rola algum dia? Até lá, bons jogos!

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